Me sentei naquele banco da praça, a hora não passava de maneira alguma e eu estava pela primeira vez totalmente sozinha em algum lugar fora de casa.
Olhei a minha volta e vi partes em que estive inúmeras vezes durante minha infância e depois olhei para a parte em que estive inúmeras vezes durante minha transição pré-adolescente para adolescente.
Mirei no segundo lugar, vi pessoas iguais a todos que rondavam a mim e faziam o mesmo que eu um dia já fiz.
E começou a rodar na minha cabeça minha vida inteira exatamente igual como um filme.
Lembrei como foi lidar com as mentiras que circulavam a minha volta quando eu não sabia direito o que era mentira.
Aprendi a me meter em aventuras de criança e cresci com negação e exclusão de todos.
Lidei com o anjinho da Nandinha me defendendo dessas pessoas, porque ela era a mais querida de todos.
Na minha cabeça isso era estranho, eu ser a mais odiada e irmã da mais querida.
Aprendi a lidar com alguns monstros perversos que tornaram tudo mais negro dentro de mim, mas ela tava sempre lá do meu lado e por ela eu não soltava os meus monstros.
Aprendi a lidar com mudanças constantes, diferentes lugares, pessoas mas sempre no final era sempre a mesma coisa.
Aprendi a não tentar sofrer quando a perdi, ao menos por algum tempo mais tentei do que consegui.
Ao mesmo tempo tive que lidar com todas aquelas mentiras do inícios virem a tona, e toda aquela imagem de família perfeita e feliz foi destruída da minha mente, sendo reduzida a pó tão rapidamente.
Foi ela, meu pai, adeus milésima cidade que morei.
E dessa vez mudar me pareceu algo totalmente novo, porque esse extra todo não era incluído nas outras vezes. Então tudo começou e da mesma forma de antes, só que sem toda a minha proteção.
Agora não tinha mais o porque de não soltar meus monstros. Aos poucos eu fui deixando eles saírem até olhar no espelho e eu mesma não me reconhecer.
Comecei a lidar com a raiva absurdamente gigantescas dentro de mim, a vontade de morrer, as constantes mudanças do meu humor e o fato de me machucar o tempo inteiro.
Veio as mudanças físicas, me depreciando, me estragando cada vez mais.
Depois veio o álcool, cigarro até o ponto do que mais poderia fazer mal a mim.
Não soube lidar com meus sentimentos, suas intensidades e o controle deles sob mim.
Me encontrei em relacionamentos desastrosos, me encontrei em relacionamentos que minha própria cabeça tornou desastrosos e dificuldade de saber quem sou eu.
Qual era a minha identidade, fui mudando, mudando.. até ver o que mais me agradava.
Me deparei inúmeras vezes diante da morte.
Me deparei com uma cama de hospital e quase 3 meses olhando pra relógios, agulhas, soro, remédios, exames em cima de exames.
Me deparei com o pânico, me encontrei no pior dos estados que achei que poderia me encontrar.
Me deparei acordando na cti com um tubo que entrava pelo meu nariz e que ia até o estômago.
Me deparei tocando campainha pra enfermeira ir lá porque tava chorando e queria parar de tossir, tossir fazia doer.
Me deparei quase desistindo, era a chance perfeita.
Mas pensei demais mesmo em todos os meus sonhos, tudo o que um dia sonhei... me deparei pensando em tudo como estou fazendo agora.
Aprendi a saber como finalmente as coisas deveriam ser a dois e como o amor realmente é.
Lidei com choros e tristeza assim como lidei com risadas e felicidade.
Finalmente me encontrei levantando depois me jogando pro chão de novo.
Olhei pra trás, e pensei novamente em tudo o que pensei e quis... e levantei.
Busquei meus sonhos e me encontrei.
Por fim eu vi que precisava ser forte, ser forte pra quando bater crise contar até 10 e dar tchau pra ela.
Que pessoas jamais em hipótese alguma vão saber o que senti, o que sinto, o que pensei e o que penso.
E que é natural entrarem e saírem constantemente das nossas vidas. E que vão existir aquelas pra te decepcionar, pra você decepcionar, pra te surpreender e você surpreender.
E que o que se encontra dentro de você, sua essência é importante.
Mas o principal é ser importante pra si mesmo.
E o filme acabou, acendi um cigarro e olhei novamente pras árvores, suspirei bem fundo, levantei e fui pra casa.
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